É aqui que sentes, camarada, aqui por cima do peito? E queima, não é? Como conheço isso bem! E por que razão vieste? Por que razão não ficas, obstinado e orgulhoso na escuridão, e vens, sim, tomar lugar debaixo de janelas iluminadas para lá das quais há música e o riso da vida? Pois não conheço eu também a ânsia mórbida que te arrastou até aqui, de alimentar esta tua desgraça, a que tanto se pode chamar amor como ódio? Nada me é estranho dessa desolação que te anima, e pensavas tu envergonhar-me! O que é o espírito? Ódio que se entretém. O que é a arte? Nostalgia criadora. Tu e eu estamos em casa na terra dos traídos, dos famintos, e as traiçoeiras horas plenas de autodesprezo, essas também nos são comuns, essas em que nos perdemos num amor ignominioso pela vida, pela felicidade tosca. Mas tu não me reconheceste.

Thomas Mann | Os Famintos e outras histórias

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