Li recentemente que as relações afetivas são formadas por duas categorias: dos egoístas e dos doadores. Você era um doador nato. Minha mãe uma egoísta nata. E ela percebeu isso rapidamente, já no início da faculdade onde vocês se conheceram. Ela logo percebeu que você cedia fácil a qualquer tipo de chantagem emocional. Essa foi a sua principal arma. Não a condeno por isso. A infância fornece certas mágoas e é com elas que lutamos.

Jefferson Tenório | O avesso da pele

E confesso que às vezes eu não queria ser profundo. Eu queria apenas brincar e ser como os outros filhos eram com os seus pais. No entanto, agora eu sei que você me estava preparando. Você sempre me dizia que os negros tinham de lutar, pois o mundo branco havia nos tirado quase tudo e que pensar era só o que nos restava. É necessário preservar o avesso, você me disse. Preservar aquilo que ninguém vê. Porque não demora muito e a cor da pele atravessa nosso corpo e determina nosso modo de estar no mundo. E por mais que sua vida seja medida pela cor, por mais que suas atitudes e modos de viver estejam sob esse domínio, você, de alguma forma, tem de preservar algo que não se encaixa nisso, entende? Pois entre músculos, órgãos e veias existe um lugar só seu, isolado e único. E é nesse lugar que estão os afectos. E são esses afectos que nos mantêm vivos.

Jefferson Tenório | O avesso da Pele

Carta de Amor a Saramago

José,

Os maiores efeitos surgem de causas mínimas, sem importância ou grandeza que justifique uma centelha da nossa atenção. E a verdade é que eu estava distraída, José, enquanto essas causas surgiam pela calada, cresciam em silêncio e profundidade na cidade, como de magia se tratasse. Refiro-me a todas as pessoas que te escreveram pelo teu centenário, nos seus quartos, no trabalho ou a caminho de casa. Em parte culpo a minha distracção, mas a recusa em atribuir-te um tempo é a real culpada, porque isso significaria admitir a tua finitude, a tua mortalidade.

Estive a reler a história de Marcenda e do seu braço paralisado e indiferente. A imagem da mão direita que escolta a mão esquerda doente. Basta mencionar o nome incomum da Marcenda para que dele irrompa toda uma catadupa de imagens, tal como Ricardo Reis despertou do seu sonho inerte, que era vida ou morte, não sabia ele e não saberemos nós ao certo também. 

Causas mínimas, maiores efeitos. As mãos sempre exerceram um poder enorme sobre mim. As mãos são o meu elo de ligação para as pessoas que amo e que já partiram, o elo entre a vida e a morte, são a forma de findar a distância que me separa dessas pessoas, para que não caiam num profundo esquecimento porque não consigo imaginar escuridão mais obscura ou mórbida que o esquecimento. A frase mais triste que li foi de Roberto Bolaño e dizia assim: “A imortalidade não existe, Shakespeare será esquecido”. Aquela frase abalou os recônditos da alma. Tenho mais medo de esquecer do que ser esquecida. E tenho pena de nunca ter conhecido as tuas mãos.

E essa imagem ou a falta dela me catapulta para outras memórias, para outras mãos que também me faltam, como as mãos do meu pai. O meu pai fez-me com essas mãos, com o primeiro aceno tímido à minha mãe, o primeiro entrelaçar de dedos, o primeiro afago no rosto. Essas mãos nunca me acenaram no dia em que terminei o curso que lhe traria tanto orgulho, nem tampouco me me irão nortear a um altar, não me farão sentir ainda menina quando toda a gente me vê mulher. José, quando eu as acariciei já frias e sem vida, as mãos mortas do meu pai, tinha eu 21 anos. Não sabia nada, o pouco que sabia tinha-me sido ensinado pelos livros. Como deves imaginar, não me veio tudo isto de imediato à lembrança. Veio apenas depois, quando a dor superou o espanto.

Mas a mão débil da Marcenda também me lembra outras mãos, as mãos ásperas da minha avó. Mãos que tingem de cansaço o olhar de quem as contempla, o cansaço de uma vida com pouca ocasião para leituras, mãos levantadas do chão, altas, altas. Esforço-me para manter essa imagem viva dentro de mim, até que tudo o resto desapareça, até que ela desapareça.

Sempre atribuí um poder especial e talismânico aos livros, porque sempre me protegeram. Os teus livros, as linhas que tu escreveste José, sozinho num quarto rodeado de livros, porque não te consigo imaginar dentro de paredes vazias, habituado à presença dos teus livros, uns lidos e relidos, outros ainda por ler, mas todos bons amigos, como se de velhos amigos realmente se tratassem, num companheirismo que dispensa palavras e agradece os silêncios, compenetrado a escrever outros livros, outros amigos, de semblante fechado e absorto como quem mergulha em profundas meditações. Quem me dera testemunhar essa magia, esse céu acontecer. Quem me dera que seja esse o céu que hoje te abarca.

Não obstante o nome Sara completar o teu, Saramago, és tu que me completas. Tu és o mago, o mestre, e magas são as tuas palavras que me inflamam, me carregam, e são as mãos que me embalam ou me impulsionam a dar os primeiros passos trémulos em direcção ao que se segue, o que quer que isso seja. São os teus livros e as tuas palavras que saram o meu luto e as minhas feridas. Talvez esta carta te ajude a sarar um pouco ou a sarar a dor das pessoas que te perderam. Quem saiba estas palavras possam ser mãos que te amparam para que nunca caias nesse vazio mordaz do esquecimento enquanto tateias a escuridão.

Mais uma amizade em cartas,

Sara 

Talvez fosse possível morar em Copacabana e não enxergar nada daquilo, mas Maria circulava pelos lugares mais vivos do bairro, às horas mais mortas. Aliás, pagavam-lhe para isso. Em sua descrição, homens urinavam tranquilamente à porta dos bares e valentões espancavam gente indefesa, a poucos metros de policiais que, em vez de intervir, palitavam os dentes e davam gargalhadas boçais. Cada edifício tinha uma média de cinquenta janelas, atrás das quais se escondiam, pelas suas contas, três casos de adultério, cinco de amor avulso, seis de casal sem benção e apenas dois de conjugues unidos no padre e no juiz…E, como se não bastasse, faltava água.

Ruy Castro | Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova

Na vida, para se perceber, mas se perceber verdadeiramente, como são as coisas deste mundo, deve-se morrer pelo menos uma vez. E então, uma vez que essa é a lei, o melhor é morrer quando ainda se é novo, quando se tem ainda tempo, diante de si, para se aguentar no balanço e ressuscitar.

Giorgio Bassani | O Jardim dos Finzi-Contini

Naquele tempo era difícil saber. Uma pessoa vai ao cinema ou ao teatro e vive a sua noite sem pensar nos que já cumpriram a mesma cerimónia, escolhendo o lugar e a hora, vestindo-se e telefonando, e fila onze ou cinco, a sombra e a música, a terra de ninguém e de todos ali onde todos são ninguém, o homem ou a mulher no seu lugar, talvez um pedido de desculpas por chegar tarde, um comentário em surdina que alguém acata ou ignora, quase sempre em silêncio, os olhares vertendo-se no palco ou no ecrã, fugindo do que está próximo, do que está deste lado.

Julio Cortázar | Gostamos tanto da Glenda