-Se a morte não tivesse sido inventada, nunca teríamos nascido – digo eu aos meus doentes, para os consolar do medo de morrerem.
-Como assim?- costumam perguntar.
-Muito simples: o mundo teria ficado tão cheio de gente desde há tanto tempo, que a nossa geração nem sequer teria podido nascer…Muito antes de nós, um mundo cheirinho de pessoas teria brandido o letreiro COMPLETO, erguido no ponto mais alto da nossa existência…Se não tivesse sido a morte, não teríamos podido saciar a nossa curiosidade, e todas essas gerações que estão à espera de vez, e nas quais a nossa curiosidade se há-de repetir, nada poderiam ver.
-Está bem, mas então, e a gente não pode ver as novidades?
-As novidades?…Feitas bem as contas, creiam-me que não vale a pena ficar à espera por causa disso…O que vai chegar é parecido com o que já passou…É como essas sessões contínuas de cinema em que, chegando a certo ponto, se volta a repetir a primeira parte do programa. Por fim os meus doentes parecem entender e mostram-se resignados, isto quando não chicoteiam a cabeça, que é o ranger da vida que não quer admitir tal possibilidade.
Ramon Gomez de la Serna | O médico inverosímil
