Uma sala de jogo Hérault-Séchelles, algumas mulheres à mesa de jogo. Um pouco afastados, Danton está sentado num banco aos pés de Julie.

Danton: Olha-me para aquela senhora, a arte com que baralha as cartas! Percebe do assunto, dizem que dá as copas ao marido, e aos outros dá os ouros. Ai, mulheres, fazem com que um homem se apaixone até pela mentira.  

Julie: Não confias em mim?  

Danton: Nem sei. Sabemos tão pouco um do outro. Somos elefantes de pele grossa, estendemos as mãos, mas é uma perda de tempo, roçamos só o nosso couro um contra o outro — estamos muito sós.  

Julie: Tu conheces-me, Danton.  

Danton: Conheço, sim, aquilo a que se chama conhecer. Tens olhos negros, cabelo aos caracóis, uma pele macia e chamas-me «querido Georges». Mas (aponta-lhe para a testa e para os olhos) aqui, aqui, o que é que está aqui por trás? Os nossos sentidos são grosseiros. Conhecer-se um ao outro? Teríamos de abrir o crânio e arrancar os pensamentos das fibras dos nossos cérebros.  

A morte de Danton, de Georg Büchner, tradução de Maria Amélia Silva Melo e Jorge Silva Melo, edição Bicho do Mato/Teatro Nacional D. Maria II

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