Ninguém podia dizer-me o que é que são os números e eu não era capaz de formular a pergunta.  – Os Anos de Escola por Carl Jung 

O professor fazia de conta que a álgebra era perfeitamente evidente, quando eu ainda nem sequer sabia o que é que são os números em si. Não eram flores, animais, fósseis, nada que pudesse imaginar-se, apenas quantidades que resultavam de operações de contar. As quantidades, para confusão minha, eram substituídas por letras que significavam sons, de maneira que, por assim dizer, podiam ouvir-se. Estranhamente, os meus colegas eram capazes de lidar com estas coisas e achavam-nas evidentes. Ninguém podia dizer-me o que é que são os números e eu não era capaz de formular a pergunta. 

Para meu terror, descobri que também não havia ninguém que compreendesse a minha dificuldade. É verdade que, como tenho de reconhecer, o professor se esforçava ao máximo para me explicar a finalidade desta estranha operação de traduzir quantidades compreensíveis em sons. Contudo, isso não me interessava minimamente. Pensei de mim para mim que, afinal era totalmente arbitrário exprimir números através de sons, pode na mesma exprimir-se a como macieira, b como pereira e x como ponto de interrogação, a, b, c, y e x eram pouco inteligíveis e nada me explicavam sobre a natureza do número, tão pouco como a macieira. 

O que me indignava mais era o axioma: se a=b e b=c, então a=c, quando, afinal, estava bem assente por definição que a designava uma coisa diferente de b e, portanto, enquanto algo diferente, não podia ser equivalente a b, quanto mais a c. A minha moral intelectual revoltava-se contra estas incoerências levianas que me vedavam o acesso à compreensão da matemática. 

Ainda por cima, fui dispensado de Desenho por absoluta incapacidade. Fiquei contente, é verdade, por causa do tempo que assim ganhava, mas foi também uma nova derrota, uma vez que eu tinha alguma habilidade para desenhar, muito embora não soubesse que isso dependia, no essencial, do meu sentimento. É que só era capaz de desenhar o que estimulava a minha fantasia. Mas tinha de copiar modelos impressos de divindades gregas de olhos cegos e, ao ver que isto não me estava a sair bem, o meu professor pensou, manifestamente, que eu precisava de algo naturalista e mandou-me copiar uma cabeça de cabra. Falhei redondamente nesta tarefa e isso foi o fim das minhas aulas de desenho. 

C.G. Jung | Memórias, Sonhos, Reflexões

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