Dias de míngua, céus azuis sem nuvens, um mar infinito de azuis e de sol constante. Dias de fartura – fartura de preocupações, fartura de laranjas. Comia-as na cama, comia-as ao almoço, engolia-as ao jantar. Laranjas, cinco cêntimos a dúzia. A luz do sol no céu, o sumo do sol na minha barriga. No centro da cidade, no mercado dos japoneses, o sorridente japonês de cara afilada via-me chegar e pegava logo no num saco de papel. Generoso dava-me quinze, às vezes vinte laranjas por cinco cêntimos. “Gosta de banana?” Claro que sim. E ele dava-me algumas maçãs. Uma receita nova: laranjas com maçãs. “Gosta de pêssego?” Pois com certeza, e lá ia eu para o quarto com o saco castanho na mão. Interessante novidade, pêssegos com laranjas. Esmagava-as com os dentes, o suco a rolar e a gemer do fundo do meu estômago. Era tão triste o meu estômago. Chorava muito e pequenas nuvens negras de gás beliscavam-me o coração.
John Fante | Ask the dust
