Considerava as palavras do meu amigo enquanto bebia cerveja num bar perto da estação. No calor do bar a roupa fumegava. Gotas de água à volta. Calma solidão sem dor. Havia música. A minha alma conhecia os seus caminhos. A terra era grande. Tudo quanto eu fizesse, cada coisa que me acontecesse, não me tornariam maior ou menor que a fé ou o desespero. Pois o desespero era antigo: uma delgada, tenacíssima raíz. Era uma experiência, um pensamento, um destino – algo que eu aceitava, que me induzia talvez a amar a vida. Estava só no meio da chuva tranquila
Herberto Helder | Os Passos em Volta
