Todos os dias são dias de trabalho, são dias de escrita. E isso, só por si, é uma regra. E ao fazê-lo desta maneira descobri como a vida nos apresenta métodos sem que os procuremos. Não tinha uma história, não sabia para onde ia, nem sobre o que ia escrever. Mas a nossa mente dá-nos a volta.

Patti Smith | M Train

O amarelo é uma cor terrestre, que não tem grande profundidade. Estriado com azul, adquire, como já vimos, um tom doentio. Comparado aos estados da alma, poderia ser a representação cromática da loucura, não da melancolia ou da hipocondria, mas de acesso de raiva, de delírio, de loucura furiosa.

O vermelho, tal como se imagina, cor ilimitada e essencialmente quente, age interiormente como uma cor transbordante de uma vida fogosa e agitada. Não possui, porém, o carácter dispersivo do amarelo, que se espalha e se consome por todos os lados. Apesar de toda a sua energia e intensidade, o vermelho manifesta um imenso e irresistível poder, quase consciente do fim.

Wassily Kandinsky | Do espiritual na arte

The most beautiful people we have known are those who have known defeat, known suffering, known struggle, known loss, and have found their way out of the depths. These persons have an appreciation, a sensitivity, and an understanding of life that fills them with compassion, gentleness, and a deep loving concern. Beautiful people do not just happen.

Elisabeth Kubler-Ross

Chega a ter gosto 
a chuva 
vista dos cafés 

caindo sobre as estátuas 
e a nostalgia 

chega a ser morna 

com fumo e álcool 
na garganta 

Até os homens 
passarem junto aos vidros 

Reais Molhados 

Sem emoções instruídas 
Pensando em remédios 
e prestações 

grisalhos 
sem serem velhos 

e falando sós 
sem serem loucos 

António Reis | Poemas Quotidianos, pág. 26, Porto, [1957]

-Se a morte não tivesse sido inventada, nunca teríamos nascido – digo eu aos meus doentes, para os consolar do medo de morrerem.

-Como assim?- costumam perguntar.

-Muito simples: o mundo teria ficado tão cheio de gente desde há tanto tempo, que a nossa geração nem sequer teria podido nascer…Muito antes de nós, um mundo cheirinho de pessoas teria brandido o letreiro COMPLETO, erguido no ponto mais alto da nossa existência…Se não tivesse sido a morte, não teríamos podido saciar a nossa curiosidade, e todas essas gerações que estão à espera de vez, e nas quais a nossa curiosidade se há-de repetir, nada poderiam ver.

-Está bem, mas então, e a gente não pode ver as novidades?

-As novidades?…Feitas bem as contas, creiam-me que não vale a pena ficar à espera por causa disso…O que vai chegar é parecido com o que já passou…É como essas sessões contínuas de cinema em que, chegando a certo ponto, se volta a repetir a primeira parte do programa. Por fim os meus doentes parecem entender e mostram-se resignados, isto quando não chicoteiam a cabeça, que é o ranger da vida que não quer admitir tal possibilidade.

Ramon Gomez de la Serna | O médico inverosímil