Hoje acordei muito DFW

Aguardava deitada de costas no sofá a análise de todos os feitos práticos e espirituais deste dia. A vida não é má, se todos os dias se concluíssem no sofá. Olho para cima e planando sobre a minha cabeça, leio no mesmo livro e pela milésima vez aquela célebre frase de Degas “ je voudrais être illustre et inconnu”. É só uma frase indistinta no meio de tantas outras, no meio de tantos símbolos inertes. Não sabendo bem porquê, essa desperta mais atenção do que as outras, tem identidade, salienta-se. Talvez a tatue mais tarde. Mentira, morro de medo de coisas próximas do irreversível e tão denunciantes. Por isso, para mim, os pensamentos tatuam-se no papel. Acontece que esta frase despertou em mim a conclusão espiritual deste dia – a de que o meu estado é bem mais infeliz. Há dias assim. Quando digo isto a outras pessoas, desenha-se no rosto delas um alívio denunciante. Sentem-se aliviadas e isso é óbvio, por o sentimento ser mútuo, percebem?  O sentimento de merda que nos aproxima. Há dias assim em que não considero o meu quotidiano particularmente brilhante em nada e em que me sinto um apêndice cinzento asqueroso qualquer.  Sem saber bem porquê, embora calcule que tenha a ver com o aborrecimento, a mediocridade, a abundância de horas de trabalho e o pouco tempo que disponho para mim mesma. Mesmo à hora de almoço, sou perita na arte de me escapulir e me esconder dos outros, fazendo de tudo para comer sozinha, com os meus livros. Sem qualquer livro ou revista à mão, às vezes acontece lembrar-me de amigos caídos, aqueles que se foram, gone ou então sentir falta da terra onde nasci, uma qualquer aldeia do interior, onde tempo arrasta-se indiferente e não há muita coisa a fazer para além de esperar e observar. Engraçado como toda a minha infância se encontra tão bem resumida hoje nos livros de auto-ajuda. Antes para mim era só vida, a interioridade, a ausência de desejo, a serenidade, a originalidade de pensamentos, o fortalecimento interior, tudo isso que falam naquelas esparrelas de livros de auto-ajuda que saturam as feiras do livro. 

Mas o lugar em si, a aldeia rural do norte onde nasci, igual a tantas outras, era especial à sua maneira. Cresci numa rua que desafiava a gravidade, ladeada por empreendimentos emigrantes todos construídos na década de 70. Assomavam-se nesse lugar casas adornadas numa estética tão estragada quanto repugnante, mas que ainda assim seduzia e tornava difícil desviar o olhar. As casas pretendiam ser biografias de afirmação e sucesso, fortunas alheiras algures na Suíça ou em França. Quando era pequena, aquelas casas exerciam em mim um enorme fascínio. 

O que mais me intrigava era a forma como a riqueza decorativa daqueles espaços contrastava com a imagem de uma casa despida por dentro, fria e desabitada grande parte do ano. Mais tarde compreendi que esse meu sentimento às vezes estendia-se também a pessoas que conhecia. Como os resquícios da chuva na Primavera e seus brilhos pérola que não passam de promessas brilhantes. Existem pessoas assim, que não passam de promessas brilhantes, e que depois se revelam, desapontantes. Basta abrir o meu telemóvel, as redes sociais, os exercícios de engano, as celebridades sem nome. A lista é infindável. 

Daí preferir os livros e o fantástico à realidade. Mas depois vem a inquietação, a ansiedade de apenas dominar duas línguas e do tempo ser tão breve. 

Agora de regresso às origens, no meu sofá, compreendo que o silêncio albergado pelas casas da minha aldeia sempre pressagiou uma das minhas piores angústias, a nostalgia de abandono e em simultâneo a de anonimato que sempre me acompanhou. Je voudrais être illustre et inconnu.

Na cidade é demasiado tarde, por isso em casa já se conseguem ouvir as habituais discussões dos vizinhos. A empreitada é antiga, a estética ofensiva, mas a renda aceitável, por isso aqui estou eu sem queixumes. Podia ser pior.  Mas com o péssimo isolamento, ouve-se tudo. Promíscuo. Aposto que há gente que gosta disto. Hoje foram eles, os vizinhos de baixo a discutirem, amanhã serão outros, havemos sempre ter dificuldades de lidar com os sentimentos, todos eles, até mesmo os mais banais. 

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