A ilha

Estamos numa ilha, numa ilha onde já tínhamos estado de passagem. Recordo-me daquelas águas tranquilas e mornas e da palmeira tombada. Não tinha planos de acordar numa ilha e sinto no corpo um estremecimento estranho, como se tivesse acordado de repente, de um sono longo e profundo. 

-Tenho a sensação de andarmos aqui às voltas. Acabo por dizer.

Estávamos paradas na rebentação do mar, mas contornávamos aquele pedaço de terra à horas. Pelo menos era o que parecia. Vejo os meus pés mergulhados na espuma de um mar. Um mar muito pouco furioso. As águas tranquilas e mornas, fazem-nos confundir as ondas com carícias. Lembro-me instantaneamente de uma frase de Ana Hatherly, – Não medir a altura do sonho. Não medir a distância de um sorriso. Quando a espuma das ondas chega à areia qualquer coisa de irreversível acontece.

-M., continuo a não perceber. Há um ano a ouvir o mar? Incrível, andas nisto de ouvir as ondas do mar ao acordar e nunca achaste isso estranho? Ela não responde. Está muito compenetrada, dedicada a tentar fazer desaparecer dentro da areia as conchas mais feias e danificadas, empurrando-as de forma muito sorrateira com os dedos dos pés. Era essa a sua arte. Agora que penso, fez isso a vida toda e de forma muito subtil, escondendo as falhas, os escombros. Uma arte.

-Continuo a achar que devias ter ido a um médico, mas tenho que admitir que não deixa de ser um sintoma poético. Ouvir o mar. De todos os sintomas possíveis… ouvir o mar. Só tu. 

Ela demora-se a resgatar uma concha qualquer que lhe captou mais a atenção. Mostra-me para a analisar e guarda-a no bolso do vestido. Um vestido com bolsos. Não sei como dizer isto mas é impossível estarmos ali. Aquele tarde é apenas uma impressão de uma tarde, uma premonição, uma tarde que nos estava predestinada.

-Sara, tu sempre procuraste poesia na medicina. Apoptose. Lembras-te? Morte celular para muitos, e para ti, a queda das pétalas. É dos livros. 

-Um livro é publicado a cada meio minuto – digo eu. 

Esta miúda guarda as memórias bem guardadas, pensei. Mas não só. Por falar em memórias, a noite desabou de repente. A água libertava incandescências. Questiono-me do porquê do fenómeno, de toda aquela calda de estrelas cadentes. Mas elas dançavam com os meus dedos, e isso divertia-me.

-Mas penso nisto tudo, sabes? Acho que me devias ter dito. Era o mínimo. Topa-me só este céu brutal…e esta água. Um céu assim não consegue suportar a multiplicidade de estrelas. Não há espaço que chegue no espaço, percebes? Algumas acabam por mergulhar sei lá. Existem paradoxos que explicam a distribuição regular e infinita de estrelas. 

Agora tínhamos a água pela metade do tronco. Estávamos mergulhadas no mar e nuas. Só nós contrastávamos com a imensidão da noite naquele mar e do céu nocturno. Ela sorria, com um daqueles sorrisos incompreensíveis. Soma de radiação, volume estrelar máximo diria eu. Aquele lugar era tão virgem. Eu não me lembro da última vez em que não estava com ela, com a M., ou o que estava a fazer. Não acho isso estranho, porque somos assim juntas. 

-M. estamos seguras aqui. “Uma morada para ignorar o mundo”.

-Esta?

-Claro. Porque não? Podíamos continuar assim, a apanhar conchas e abandoná-las na outra metade da ilha. Um punhado delas, guardávamos nos nossos bolsos, para que não caiam no esquecimento. Fazíamos o mesmo com as estrelas do mar. Deixávamos passar o tempo. Respirar o ar salgado. Murchar que nem flores ao sol.

-Sara, tens assim tanto medo do fim?

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