Numa outra noite, um sonho. Tu corrias em dunas, que não eram de areia mas sim cheias de verde. Em baixo a imensidão do mar e eles com os pés mergulhados em aguas calmas e escuras. Olhavas as fisionomias mortas impotente, com o peito arfar de angústia e medo. Eram seres eternos. Anjos tristes. Demoravam o seu olhar no horizonte, na linha da água, num consentimento silencioso. Fixos no horizonte, não te ouviam. Tentativa de aproximação frustrada. Sentes te imobilizada, nenhum grito se solta.
Eles olham para ti. Tu consegues ver mas não é suposto. Percebes que é algo extinto, precioso, sagrado, por isso tens medo de ver. Voltam os seus rostos magros, bocas belas e amargas, par de asas escuras. Um último olhar desses seres eternos para ti. O olhar triste de desapontamento, desilusão profunda. Olham e despedecem–se em silêncio. Devolvem o olhar para as àguas, agora de punhos erguidos abrem as asas. Nada lhes faz falta. Ninguém os espera. Partem para a sua última morada. Começa o voo dos pássaros negros. Evaporam-se em fumo e cinzas para um ceú vazio. Esses seres eternos.
Não há sol, essa grande estrela amarela. E é noite sem luar. Do céu suspenso, um candelabro de salões e tempos muito antigos. Ilumina o sonho, é luar artificial, luz que cega, e faz doer a cabeça ferida por dentro. Deslizas da noite e do sonho, para a luz gloriosa que te envolve. Acordas com a manhã na janela, e os vestígios da noite no suor dos lençois. Gotas de suor que se escorrem pelas costas nuas. Corpo que chora sobre si mesmo.
O sonho. 11 de Fevereiro de 2013
