Curiosamente, a alma, a mente e o espírito derivam do grego Psique ou psychḗ, que por sua vez significa “respiração”, “sopro” ou “alento”. Os gregos acreditavam que a respiração era a alma humana. Quanto menos respirávamos menos alma teríamos.

Os pulmões abrem e possibilitam tudo o que é vital e humano. Desde o primeiro momento em que nascemos, o esforço por respirar começa como que por instinto, mas como algo que custa a engolir. O ar enche os pulmões quando estes ainda o recusam, até que por fim o ar vence e dilacera-nos num grito.

Agora imaginem-se submersos em água, de olhos abertos no azul, numa apneia calma e controlada, a contabilizarem mentalmente o tempo que vos resta num ritmo brando, cada vez mais brando, representando a vossa consciência titulada mas falsa do fim.

É impossível imaginar o que sente quem o rosto é oprimido contra o asfalto, e implora por respirar, a asfixia que terá sentido dentro e fora de si, de forma lenta, penosa e real. Nada é racional num homem que implora pelo seu sopro, isto é, pela sua alma. Imagino a escuridão sempre trágica, uma luz de luto, um luto antigo, sob o olhar atento de todos os antepassados eternos que o esperavam em silêncio.

Em contrapartida, temos um vírus que nos asfixia, que nos ameaça o fôlego, o alento e a psique, e que segundo os gregos é tudo a mesma coisa. Existe um termo cunhado pelo psicólogo e sociólogo Corey Keyes denominado Languishing que procura descrever este estado de entorpecimento emocional que não é equivalente a um estado depressivo, mas que nos afasta da saúde mental plena, um sentimento semelhante a uma estagnação vazia. Um estado de entorpecimento que não nos impede de funcionar, mas também não nos permite funcionar em plenitude, na nossa capacidade total. Um sentimento desconcertante para quem sente que o tempo não interessa na medida em que também não existem propriamente manhãs quando nada é novo. Como um movimento debaixo de água, demorado e lento. É esse o género de estagnação. O vírus perdura, mas a vida também e em dias de míngua, é mais crucial do que nunca procurar novos desafios e experiências, e procurar respirar por assim dizer, sem ar, tentando permanecer imunes ao aborrecimento. 

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