“Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros. A visão dura um segundo ou talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido o seu número? O problema envolve o da existência de Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros vi. Se Deus não existe, o número é indefinido, porque ninguém pode fazer a conta. Nesse caso, vi menos de dez pássaros (digamos) e mais de um , mas não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros. Vi um número entre dez e um, que não é nove, oito sete, seis cinco, etc. Esse número inteiro é inconcebível; ergo, Deus existe.”

Jorge Luis Borges | O fazedor

Porque a mim, em literatura, unicamente me atrai o que, de entrada não consigo entender. John Cage, falando das suas leituras infantis, dizia que tinha um sistema muito simples de saber o que gostava ou não: gostava do que não entendia. Se entendia, abandonava-o, desiludido. Eu acho que vamos perdendo o gosto e a paixão para nos aventurarmos no incompreensível, para nos aventurarmos em tudo que se nos torna desconcertante, diferente, dissidente, estrangeiro, excêntrico.

– São os olhos dele sobretudo que são terríveis. Dir-se-iam buracos negros deixados por archotes num tapete de Tiro. Dir-se-iam cavernas negras onde vivem dragões, cavernas negras do Egipto onde os dragões se refugiam. Dir-se-iam lagos negros perturbados por luas fantásticas…Parece-te que dirá mais alguma coisa?

Salomé | Oscar Wilde

Continuo a fazer de conta que não sou cego, continuo a comprar livros, continuo a encher a minha casa de livros. Há dias ofereceram-me uma edição de 1966 da Enciclopédia Brockhaus. Senti a presença desse livro na minha casa, senti-a como uma espécie de felicidade. Ali estavam os vinte e tal volumes, escritos numa letra gótica que sou incapaz de ler, com os mapas e gravuras que não posso ver; e, todavia, o livro estava ali. Senti como que a gravitação amistosa do livro.

Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade concedida aos homens.


Jorge Luis Borges | O Livro (Conferências de Belgrano).

O pintor Hokusai esperava alcançar o ideal da sua arte quando tivesse cento e dez anos. Nessa altura, dizia ele, todos os pontos, todas as linhas que o seu pincel traçasse seriam vivos.

Por vivos entenda-se individuais. A arte perfeita de Hokusai exigia que tudo fosse o mais diferente possível. 

Marcel Schwob | Vidas Imaginárias

Imagem:  A Grande Onda de Kanagawa, Katsushika Hokusai (1831) 

A linguagem simbólica do inconsciente…porque as pessoas comunicam os seus pensamentos por símbolos, já reparaste? Como se falassem numa língua estrangeira, ou em chinês, sobre as coisas essenciais, e depois essa língua tem de ser traduzida para a linguagem da realidade. 

Não sabemos nada de nos próprios. 

Sándor Márai | As velas ardem até ao fim 

I think people who are in touch with the state of the world right now recognize that we’re basically all skating on thin ice. 


There is a profound sense of uncertainty and potentially you know looming danger of catastrophic proportions and it takes a lot of courage to face that we can’t simply be sure we can be bringing in some technological fix or rational solution to the situation.


Uncertainty itself is a key part of of any initiatory transformation. 


You can’t’ have a pretend near-death experience in order to have an effective transfiguration of how you live. You need to really feel everything is at stake and you don’t know the outcome and if we have the courage to face that and to go thought this dark night of the soul in some sense and to bring all our wits and heart and imagination and bravery together to engage this great threshold I think that’s the key to our future. 

The Way of the Psychonaut: Stanislav Grof’s Journey of Consciousness