Ao falarmos do vagabundo é costume dizer-se/ que acenou com o chapéu, e foi-se./ Ao falarmos do outono é costume dizer-se/ que implacável arrebatou as folhas/ das árvores, e foi-se./ Ao falarmos das grandes dignidades/ é costume dizer-se que repartiram/ agradecimentos e favores, e foram-se./ Ao falarmos da dor é costume dizer-se/ que chamou de noite/ clandestinamente à porta, e foi-se./ Ao falarmos do pobre homem é costume dizer-se/ que a chorar mostrou o coração, e foi-se.

Robert Walser (15 de Abril de 1878 – 25 de Dezembro de 1956)

Pequeno grande conto sobre o amor

“Uma mulher apaixonou-se por um homem que estava morto havia anos. Não lhe bastava escovar-lhe os casacos, limpar-lhe o tinteiro, tocar o seu pente de marfim: teve de construir a sua casa sobre a sepultura dele e sentar-se com ele, noite após noite, na cave húmida.” 

O autor deste conto é Lydia Davis.

E agora podem engolir em seco. 

Hoje resolvi mandar uma de Madame Psicose (em homenagem ao imortalizado DFW, uma espécie de inside joke para quem leu o Infinite Jest),


aos sofredores de burnout, aos hiperactivos, hiperfrenéticos e hiperneuróticos, aos deprimidos e frustrados. Às tensões geopolíticas, às crises climáticas, à escassez da água até 2050, ao colapso económico, à especulação imobiliária, às fake news, à fome, às greves, aos gafanhotos mutantes e outras pragas, à pandemia e aos holocaustos nucleares, às terceira e quarta guerras. Aos cyberbullies, à desinformação e à polarização, aos influencers e social media shitstorms. Aos que ainda pensam que as vacinas nos introduzem chips para ficarmos autistas, aos rastreadores dos chemtrails e 5G, aos exploradores da Terra plana. Às pausas c/ kit kat e TikTok. Ao capitalismo que nos põe a chorar ao fim-de-semana mas não apenas ao fim-de-semana.

O mundo, efectivamente, não está para futuros.

Alguém perguntou ao sr. K. se existe um Deus. O sr. K. respondeu: “Aconselho refletir se o seu comportamento mudaria conforme a resposta a essa pergunta. Se não mudaria, podemos deixar a pergunta de lado. Se mudaria, posso lhe ser útil a ponto de dizer que você já decidiu: Você precisa de um Deus.

Bertolt Brecht | Histórias do Sr. Keuner

Uma mancha negra em movimento rodopia nos céus da infância e juventude de Søren Solkær, nos pântanos do sul da Dinamarca. Um lugar onde até um milhão de estorninhos se reúnem na Primavera e no Outono. É o fenómeno do Sol Negro, quando os incontáveis ​​pássaros se reúnem e bloqueiam a luz do Sol.  
Os estorninhos movem-se como um organismo único opondo-se vigorosamente a qualquer ameaça externa. Uma forte expressão visual é criada afirmando-se contra o céu...  "do geométrico ao orgânico, do sólido ao fluido, da matéria ao etéreo, da realidade ao sonho - uma troca na qual o tempo real deixa de existir e o tempo místico permeia. Este é o momento que tentei capturar - um fragmento da eternidade."
Livro de fotografia de Søren Solkær, Black Sun

Reflexões da terapia de hoje

A procura de sentido num meio de hesitação interessa-me. É como se nessa idade (30 anos) nos déssemos conta de que a vida é nossa. Esse processo de apropriação intriga-me. A pessoa já não é tão jovem, mas não é velha. É livre e vulnerável ao mesmo tempo.

Haruki Murakami, em entrevista ao El País.

O plural colectivo, elevado à máxima afirmativa Yes, we can, traduz precisamente o carácter positivo da sociedade da produção. As proibições e as obrigações, as ordens e as leis são substituídas pelos projectos, pelas iniciativas e pelas motivações. A sociedade disciplinar era ainda dominada pelo não. A sua negatividade produzia loucos e criminosos. A sociedade de produção gera, em contrapartida, deprimidos e frustrados.

Byung-Chul Han | A Sociedade do Cansaço