O templo de Apolo em Delfos era o centro oracular por excelência, onde se estabelecia a comunicação entre o homem e a divindade. Os gregos apresentavam as suas questões, dúvidas e inquietações privadas e este concedia-lhes a resposta através de um oráculo. O oráculo era a voz dos deuses transmitida e interpretada pelos sacerdotes que caminhando descalços sobre a terra, interpretavam a vontade dos deuses a partir do rumor produzido pelas folhas de uma azinheira sagrada quando o vento passava por elas.

“Conhece-te a ti próprio”, sentença gravada no Templo de Apolo em Delfos na Grécia e que Sócrates adoptou como princípio da vida.

Era maravilhoso. Acho que não há nada comparável: deslizar sobre a água a uma velocidade que parece de duzentas milhas por hora, mantendo-nos num equilíbrio instável sobre a onda até chegarmos suavemente à praia e encalharmos na areia. É um dos prazeres físicos mais perfeitos que algumas vez experimentei.

Agatha Christie e o surf, Agosto de 1922, Honolulu

No início do ano de 1976, no dia 12 de Janeiro, estava junto dela quando Agatha o olhou com ternura e murmurou: “Vou ver o meu criador”. Pouco depois, com total serenidade, exalava o seu último suspiro junto do companheiro dos últimos 35 anos.

Ela mesma determinou as palavras do seu túmulo. Pediu-as emprestadas a um poema de Edmund Spencer que adorava desde pequena, A Rainha das Fadas. ” Sono após labuta, porto após os temporais, paz após a guerra, morte após a vida muito bem nos faz.”

Na fotografia: Agatha Christie e Max Mallowan, nos arredores de sua casa em Devon. Reviravoltas inesperadas reconduziram a sua vida na direcção de um futuro mais pleno.

Escuta o silêncio – disse Margarita, e a areia sussurrou debaixo dos seus pés descalços. – Escuta e deleita-te com aquilo que nunca tiveste na vida: a tranquilidade. Olha, além em frente, a tua casa eterna, que recebeste como recompensa. Já vejo a janela veneziana e a vinha virgem que trepa até ao telhado… Sei que à noite virão visitar-te aqueles que te amam, aqueles por quem te interessas e que não te inquietarão. Eles tocarão para ti, cantarão para ti, verás que luz haverá no quarto quando as velas estiverem acesas! Adormecerás com um sorriso nos lábios. O sono dar-te-á forças, começaras a raciocinar sabiamente. E nunca mais ousarás mandar-me embora. Eu velarei o teu sono.

Margarita e o Mestre | Mikhail Bulgakov

“Uma vaca a ruminar erva está a sonhar com biscoitos?

Um homem enterra os pés no meio do campo. Em que árvore se irá transformar? Um carvalho ou uma figueira?

Na imaginação das aranhas, as teias também servem para apanhar homens?

As maçãs são os pensamentos doces e redondos da árvore do conhecimento?

As maçãs com bicho são os pensamentos negros da árvore do conhecimento?

O louco cricrilar dos grilos durante toda a noite: gritam de amor ou de angústia?”

Já não me recordo de onde isto veio…

Imagem| O Sonho, de Susa Monteiro

Não nos devemos apegar assim tão fortemente às nossas tendências e temperamento. O nosso talento principal é sabermos aplicar-nos a práticas diversas. O estar vinculado, e necessariamente obrigado, a um único estilo de vida não é viver, é ser.

As almas mais belas são as que têm mais variedade e flexibilidade.

Michel de Montaigne

Curiosamente, a alma, a mente e o espírito derivam do grego Psique ou psychḗ, que por sua vez significa “respiração”, “sopro” ou “alento”. Os gregos acreditavam que a respiração era a alma humana. Quanto menos respirávamos menos alma teríamos.

Os pulmões abrem e possibilitam tudo o que é vital e humano. Desde o primeiro momento em que nascemos, o esforço por respirar começa como que por instinto, mas como algo que custa a engolir. O ar enche os pulmões quando estes ainda o recusam, até que por fim o ar vence e dilacera-nos num grito.

Agora imaginem-se submersos em água, de olhos abertos no azul, numa apneia calma e controlada, a contabilizarem mentalmente o tempo que vos resta num ritmo brando, cada vez mais brando, representando a vossa consciência titulada mas falsa do fim.

É impossível imaginar o que sente quem o rosto é oprimido contra o asfalto, e implora por respirar, a asfixia que terá sentido dentro e fora de si, de forma lenta, penosa e real. Nada é racional num homem que implora pelo seu sopro, isto é, pela sua alma. Imagino a escuridão sempre trágica, uma luz de luto, um luto antigo, sob o olhar atento de todos os antepassados eternos que o esperavam em silêncio.

Em contrapartida, temos um vírus que nos asfixia, que nos ameaça o fôlego, o alento e a psique, e que segundo os gregos é tudo a mesma coisa. Existe um termo cunhado pelo psicólogo e sociólogo Corey Keyes denominado Languishing que procura descrever este estado de entorpecimento emocional que não é equivalente a um estado depressivo, mas que nos afasta da saúde mental plena, um sentimento semelhante a uma estagnação vazia. Um estado de entorpecimento que não nos impede de funcionar, mas também não nos permite funcionar em plenitude, na nossa capacidade total. Um sentimento desconcertante para quem sente que o tempo não interessa na medida em que também não existem propriamente manhãs quando nada é novo. Como um movimento debaixo de água, demorado e lento. É esse o género de estagnação. O vírus perdura, mas a vida também e em dias de míngua, é mais crucial do que nunca procurar novos desafios e experiências, e procurar respirar por assim dizer, sem ar, tentando permanecer imunes ao aborrecimento. 

O médico marcou-me consulta, e eu pensei cá comigo: porreiro, não vou ter de esperar.
Cheguei lá; quinze pessoas. Não fiquei nada contente. Felizmente, tinha lá revistas. Pus-me a olhar para as figuras. Doze pessoas. Fiz as palavras cruzadas. Oito pessoas. Fiz o problema de bridge, mas como não sei jogar, foi bastante difícil.
Por fim, chegou a minha vez.
Entrei. O médico disse-me: dispa as calças. 
– Ah, desculpe — disse-lhe. – Vim cá porque me dói a cabeça.
– Ah ah, dor de cabeça — disse-me ele. – Tem ideias fixas?
– Tenho, fixas à cabeça
– Consegue localizar a dor?
Localizar — que é que ele queria com aquele localizar? Mais uma palavra fina para assustar as pessoas.
– Vou examiná-lo — disse-me ele.
– Isso não é coisa difícil — disse-lhe eu e abri a boca e mostrei-lhe o dente do siso, o que está estragado.
Pôs-se a olhar para ele e disse-me:
– Já estou a ver o que é. Precisa de uns calmantes.

Raymond Queneau | Ficções de Humor

Talvez por o restaurante estar deserto, por não ter visto nenhum escritor, por se sentir só naquela cidade e ter necessidade de um cúmplice e de um amigo. Talvez por estas razões e por outras mais que não saberia explicar. É  difícil ter certezas quando se fala das razões do coração, afirma Pereira.

Antonio Tabucchi | Afirma Pereira