One of the things I love most about this life is that there’s no final goodbye. I’ve met hundreds of people out here, and they don’t ever say a final goodbye. They’ll just say, “I’ll see you down the road.” And I do. I see them again. And I can be certain in my heart, “I’ll see you again.”

Chloé Zhao | Nomadland (2020)

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair
Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir

Música de Tom Jobim e Chico Buarque | Eu te amo

Dias de míngua, céus azuis sem nuvens, um mar infinito de azuis e de sol constante. Dias de fartura – fartura de preocupações, fartura de laranjas. Comia-as na cama, comia-as ao almoço, engolia-as ao jantar. Laranjas, cinco cêntimos a dúzia. A luz do sol no céu, o sumo do sol na minha barriga. No centro da cidade, no mercado dos japoneses, o sorridente japonês de cara afilada via-me chegar e pegava logo no num saco de papel. Generoso dava-me quinze, às vezes vinte laranjas por cinco cêntimos. “Gosta de banana?” Claro que sim. E ele dava-me algumas maçãs. Uma receita nova: laranjas com maçãs. “Gosta de pêssego?” Pois com certeza, e lá ia eu para o quarto com o saco castanho na mão. Interessante novidade, pêssegos com laranjas. Esmagava-as com os dentes, o suco a rolar e a gemer do fundo do meu estômago. Era tão triste o meu estômago. Chorava muito e pequenas nuvens negras de gás beliscavam-me o coração.


John Fante | Ask the dust 

Toco a tua boca. 
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha. 
Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água. 

Julio Cortázar (26 de Agosto 1914- 12 Fevereiro 1984) | Rayuela

CONTRIBUTO PARA AS ESTATÍSTICAS

Em cem pessoas, sabedoras de tudo melhor – cinquenta e duas;

inseguras a cada passo – quase todo o resto;

prontas para ajudar, desde que não demore muito – quarenta e nove;

sempre boas, porque não conseguem de outra forma – quatro, talvez cinco;

dispostas a admirar sem inveja – dezoito;

constantemente receosas de algo ou alguém – setenta e sete;

aptas para a felicidade – vinte e tal, quando muito;

Individualmente inofensivas, em grupo ameaçadoras – mais de metade, com certeza;

cruéis, por força das circunstâncias – é melhor não sabê-lo, nem aproximadamente;

com trancas na porta depois da casa roubada – quase tantas como aquelas que as têm, antes da casa roubada;

não levando nada da vida a não ser coisas – quarenta, embora preferisse estar enganada;

agachadas, doloridas, e sem lanterna no escuro – oitenta e três, mais tarde ou mais cedo;

dignas de compaixão – noventa e nove;

mortais – cem em cem. Número, até agora, não sujeito a alterações.

Wislawa Szymborska, INSTANTE, tradução de Elżbieta Mikewska e Sérgio Neves, ed. Relógio D’ Água