Ninguém podia dizer-me o que é que são os números e eu não era capaz de formular a pergunta.  – Os Anos de Escola por Carl Jung 

O professor fazia de conta que a álgebra era perfeitamente evidente, quando eu ainda nem sequer sabia o que é que são os números em si. Não eram flores, animais, fósseis, nada que pudesse imaginar-se, apenas quantidades que resultavam de operações de contar. As quantidades, para confusão minha, eram substituídas por letras que significavam sons, de maneira que, por assim dizer, podiam ouvir-se. Estranhamente, os meus colegas eram capazes de lidar com estas coisas e achavam-nas evidentes. Ninguém podia dizer-me o que é que são os números e eu não era capaz de formular a pergunta. 

Para meu terror, descobri que também não havia ninguém que compreendesse a minha dificuldade. É verdade que, como tenho de reconhecer, o professor se esforçava ao máximo para me explicar a finalidade desta estranha operação de traduzir quantidades compreensíveis em sons. Contudo, isso não me interessava minimamente. Pensei de mim para mim que, afinal era totalmente arbitrário exprimir números através de sons, pode na mesma exprimir-se a como macieira, b como pereira e x como ponto de interrogação, a, b, c, y e x eram pouco inteligíveis e nada me explicavam sobre a natureza do número, tão pouco como a macieira. 

O que me indignava mais era o axioma: se a=b e b=c, então a=c, quando, afinal, estava bem assente por definição que a designava uma coisa diferente de b e, portanto, enquanto algo diferente, não podia ser equivalente a b, quanto mais a c. A minha moral intelectual revoltava-se contra estas incoerências levianas que me vedavam o acesso à compreensão da matemática. 

Ainda por cima, fui dispensado de Desenho por absoluta incapacidade. Fiquei contente, é verdade, por causa do tempo que assim ganhava, mas foi também uma nova derrota, uma vez que eu tinha alguma habilidade para desenhar, muito embora não soubesse que isso dependia, no essencial, do meu sentimento. É que só era capaz de desenhar o que estimulava a minha fantasia. Mas tinha de copiar modelos impressos de divindades gregas de olhos cegos e, ao ver que isto não me estava a sair bem, o meu professor pensou, manifestamente, que eu precisava de algo naturalista e mandou-me copiar uma cabeça de cabra. Falhei redondamente nesta tarefa e isso foi o fim das minhas aulas de desenho. 

C.G. Jung | Memórias, Sonhos, Reflexões

Sobre o Terrorismo Poético da Negatividade (parte II)

Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (20 de outubro de 1854-10 de novembro de 1891)

Depois de publicar o seu segundo livro, aos 19 anos de idade, abandonou a literatura e partiu para aventura, até à sua morte, 2 décadas mais tarde. Aos 19 anos já tinha escrito toda a sua obra e caiu num silêncio literário que duraria até ao fim dos seus dias. 

Habituei-me à alucinação simples, via com nitidez uma mesquita onde havia uma fábrica, um grupo de tambores formados por anjos, caleches nos caminhos do céu, uma sala ao fundo de um lago”. 

“Sou verdadeiramente de além-túmulo”.

Retrato de Arthur Rimbaud, 17 anos, por Etienne Carjat

Era o último dia da vida de Emiliano Leprini. Todos o sabiam. Emiliano Leprini sabia-o também. Não devemos ser demasiado sensíveis e escrupulosos nos assuntos relacionados com a morte. A existência é assim mesmo: o fim é certo e há um dia para morrermos.
Como disse, o último dia de Emiliano Leprini era exactamente aquele. Descalçou as pantufas, vestiu o seu melhor pijama de lã escocesa e deitou-se tranquilamente à espera. A tarde apagava-se, o sol mergulhava, ainda quente, no mar. A mulher era uma estátua de silêncio à sua cabeceira. Nesse momento, o moribundo observou uma mariposa que estava pousada no tecto. E não só a observou, como a estudou também (voltaremos a este assunto mais tarde, a menos que nunca mais voltemos).
Um lenço subiu à fronte da mulher e procurou pudicamente absorver uma ou duas lágrimas tristes. Emiliano tinha sido de muito boa companhia durante toda a vida e um espírito muito pronto, jovial e afável. Dele ninguém podia dizer que fora uma pessoa de trato difícil. Era a bondade e a pureza personificadas, ou como eu teria dito nos meus tempos de poeta: “Um lago tranquilo de águas límpidas, no coração ameno de um bosque.”
Ao fim de vinte e quatro horas, porém, nada tinha acontecido ainda. Emiliano Leprini começou a sentir-se um pouco desconfortável. A terra continuava no seu movimento de rotação sem ser perturbada, sem perder tempo com ninharias. E ele continuava deitado, imóvel, à espera da morte. Doíam-lhe as costas, sentia os músculos entorpecidos e tinha uma fome voraz.
– Oh! Merda!* – disse para os seus botões surpreendidos.
– Oh! Merda!* – repetiu em voz alta para a mulher, que permanecia à cabeceira.
Emiliano Leprini saltou ligeiro da cama e retomou a sua vida.
*Perdão. Estou a repetir textualmente as suas palavras. Não acrescento nada da minha lavra.


Rui Manuel Amaral nasceu no Porto, em 1973. Foi fundador e coordenador literário da revista “Aguasfurtadas”. É autor dos livros “Caravana” e “Doutor Avalanche”. E escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

Uma das minhas palestras chama-se O Mito da Normalidade. É como se acreditássemos que existem por um lado pessoas normais e por outro existem as patologias como depressão, adição, ansiedade, esquizofrenia ou doença bipolar ou défice de atenção e tantas outras patologias. Mas o que eu vejo é um continuum. Existe um espectro e traços de personalidade que estão presentes em todas as pessoas e a ideia de que existe um normal e um patológico é um mito. De acordo com a pesquisa, o melhor lugar para ser esquizofrénico no mundo não são os EUA com toda a sua indústria farmacêutica, mas é, na verdade, uma aldeia algures em África ou na Índia, onde existe aceitação. Onde existe espaço para a diferença, onde as conexões não são quebradas mas sim mantidas. Onde tu não és excluído da sociedade, mas sim acolhido. E onde existe espaço para agires da maneira como que tens de agir. Ou expressar seja o que fôr que é necessário expressar. Um lugar onde as pessoas da comunidade poderão falar e até cantar contigo. E talvez encontrem um significado para a sua chamada loucura. Logo, é contextual, é cultural. Uma doença não é um fenómeno isolado do indivíduo, mas sim uma construção cultural, um paradigma. 


Gabor Maté

Uma sala de jogo Hérault-Séchelles, algumas mulheres à mesa de jogo. Um pouco afastados, Danton está sentado num banco aos pés de Julie.

Danton: Olha-me para aquela senhora, a arte com que baralha as cartas! Percebe do assunto, dizem que dá as copas ao marido, e aos outros dá os ouros. Ai, mulheres, fazem com que um homem se apaixone até pela mentira.  

Julie: Não confias em mim?  

Danton: Nem sei. Sabemos tão pouco um do outro. Somos elefantes de pele grossa, estendemos as mãos, mas é uma perda de tempo, roçamos só o nosso couro um contra o outro — estamos muito sós.  

Julie: Tu conheces-me, Danton.  

Danton: Conheço, sim, aquilo a que se chama conhecer. Tens olhos negros, cabelo aos caracóis, uma pele macia e chamas-me «querido Georges». Mas (aponta-lhe para a testa e para os olhos) aqui, aqui, o que é que está aqui por trás? Os nossos sentidos são grosseiros. Conhecer-se um ao outro? Teríamos de abrir o crânio e arrancar os pensamentos das fibras dos nossos cérebros.  

A morte de Danton, de Georg Büchner, tradução de Maria Amélia Silva Melo e Jorge Silva Melo, edição Bicho do Mato/Teatro Nacional D. Maria II

Tisana 10

Nesse dia eu lera um artigo em que se falava da evolução das artes e se concluía que nada nos restava já fazer uma vez que tudo estava feito já e nada lhe poderíamos acrescentar. Fiquei a pensar seriamente no assunto durante um certo tempo. Até que finalmente compreendi. Dirigi-me para o meu escritório sentei-me à secretária tirei da gaveta uma folha de papel e comecei a escrever um longo telefonema. Praticando mais uma vez aquilo a que chamo a prova de resistência dos materiais poéticos chamei o meu porco Rosalina e pedi-lhe que o lesse e depois mo enviasse pelo correio.

Ana Hatherly | 463 Tisanas