Hoje aborrecemo-nos menos do que se aborreceram os nossos antepassados, no entanto temos mais medo do aborrecimento. 


Vivemos presentemente um período bastante confuso e muitas pessoas abandonaram já as ideias antigas sem terem adquirido outras novas. 

Bertrand Russell (18 de Maio de 1872 – 2 de Fevereiro de 1970), autor de A Conquista da Felicidade

Um compositor meu amigo que passou algum tempo num centro de reabilitação mental foi encorajado a praticar bridge. Depois de um jogo, o seu parceiro criticou-o por ter jogado um ás numa vaza que já estava ganha. O meu amigo levantou-se e disse: “Se pensa que vim para o manicómio para aprender a jogar bridge, está maluco.”

John Cage

I really think that musicians, probably musicians and cooks, are responsible for the most pleasure in human life. Motown music, which was very popular when I was a teenager—whenever I hear it, I instantly become happier. This is true of almost nothing! […] That’s a very important thing to do for human beings. Music makes people happier, and it doesn’t harm them. Most things that make you feel better are harmful. It’s very unusual. It’s like a drug, that doesn’t kill you.

Fran Lebowitz | Pretend it’s a city

Antifonte (séc. V a.C.) foi um autêntico pioneiro que poderia estar na vanguarda da psicanálise e das terapias da palavra. O exercício da sua profissão tinha-lhe ensinado que os discursos se forem efectivos, podem influenciar poderosamente o estado de espírito das pessoas, comovendo, alegrando, apaixonando, sossegando. Então teve uma ideia nova: inventou um método para aliviar a dor e a aflição comparável à terapia médica dos doentes. Abriu um estabelecimento na cidade de Corinto e colocou um rótulo a anunciar que “podia consolar os tristes com discursos adequados”. Quando aparecia o cliente, ouvia-o com muita atenção até compreender a desgraça que o afligia. Depois “apagava-lha do espírito” com conferências controladoras. Usava o fármaco da palavra persuasiva para curar a angústia e, de acordo com os autores antigos, chegou a ser famoso pelos seus raciocínios sedativos. Depois dele, alguns filósofos afirmaram que a sua tarefa consistia em “expulsar o rebelde pesar através do raciocínio”. 

Irene Vallejo | O Infinito Num Junco

Hoje acordei muito DFW

Aguardava deitada de costas no sofá a análise de todos os feitos práticos e espirituais deste dia. A vida não é má, se todos os dias se concluíssem no sofá. Olho para cima e planando sobre a minha cabeça, leio no mesmo livro e pela milésima vez aquela célebre frase de Degas “ je voudrais être illustre et inconnu”. É só uma frase indistinta no meio de tantas outras, no meio de tantos símbolos inertes. Não sabendo bem porquê, essa desperta mais atenção do que as outras, tem identidade, salienta-se. Talvez a tatue mais tarde. Mentira, morro de medo de coisas próximas do irreversível e tão denunciantes. Por isso, para mim, os pensamentos tatuam-se no papel. Acontece que esta frase despertou em mim a conclusão espiritual deste dia – a de que o meu estado é bem mais infeliz. Há dias assim. Quando digo isto a outras pessoas, desenha-se no rosto delas um alívio denunciante. Sentem-se aliviadas e isso é óbvio, por o sentimento ser mútuo, percebem?  O sentimento de merda que nos aproxima. Há dias assim em que não considero o meu quotidiano particularmente brilhante em nada e em que me sinto um apêndice cinzento asqueroso qualquer.  Sem saber bem porquê, embora calcule que tenha a ver com o aborrecimento, a mediocridade, a abundância de horas de trabalho e o pouco tempo que disponho para mim mesma. Mesmo à hora de almoço, sou perita na arte de me escapulir e me esconder dos outros, fazendo de tudo para comer sozinha, com os meus livros. Sem qualquer livro ou revista à mão, às vezes acontece lembrar-me de amigos caídos, aqueles que se foram, gone ou então sentir falta da terra onde nasci, uma qualquer aldeia do interior, onde tempo arrasta-se indiferente e não há muita coisa a fazer para além de esperar e observar. Engraçado como toda a minha infância se encontra tão bem resumida hoje nos livros de auto-ajuda. Antes para mim era só vida, a interioridade, a ausência de desejo, a serenidade, a originalidade de pensamentos, o fortalecimento interior, tudo isso que falam naquelas esparrelas de livros de auto-ajuda que saturam as feiras do livro. 

Mas o lugar em si, a aldeia rural do norte onde nasci, igual a tantas outras, era especial à sua maneira. Cresci numa rua que desafiava a gravidade, ladeada por empreendimentos emigrantes todos construídos na década de 70. Assomavam-se nesse lugar casas adornadas numa estética tão estragada quanto repugnante, mas que ainda assim seduzia e tornava difícil desviar o olhar. As casas pretendiam ser biografias de afirmação e sucesso, fortunas alheiras algures na Suíça ou em França. Quando era pequena, aquelas casas exerciam em mim um enorme fascínio. 

O que mais me intrigava era a forma como a riqueza decorativa daqueles espaços contrastava com a imagem de uma casa despida por dentro, fria e desabitada grande parte do ano. Mais tarde compreendi que esse meu sentimento às vezes estendia-se também a pessoas que conhecia. Como os resquícios da chuva na Primavera e seus brilhos pérola que não passam de promessas brilhantes. Existem pessoas assim, que não passam de promessas brilhantes, e que depois se revelam, desapontantes. Basta abrir o meu telemóvel, as redes sociais, os exercícios de engano, as celebridades sem nome. A lista é infindável. 

Daí preferir os livros e o fantástico à realidade. Mas depois vem a inquietação, a ansiedade de apenas dominar duas línguas e do tempo ser tão breve. 

Agora de regresso às origens, no meu sofá, compreendo que o silêncio albergado pelas casas da minha aldeia sempre pressagiou uma das minhas piores angústias, a nostalgia de abandono e em simultâneo a de anonimato que sempre me acompanhou. Je voudrais être illustre et inconnu.

Na cidade é demasiado tarde, por isso em casa já se conseguem ouvir as habituais discussões dos vizinhos. A empreitada é antiga, a estética ofensiva, mas a renda aceitável, por isso aqui estou eu sem queixumes. Podia ser pior.  Mas com o péssimo isolamento, ouve-se tudo. Promíscuo. Aposto que há gente que gosta disto. Hoje foram eles, os vizinhos de baixo a discutirem, amanhã serão outros, havemos sempre ter dificuldades de lidar com os sentimentos, todos eles, até mesmo os mais banais. 

Há alguns homens misteriosos que só podem ser grandes. Por que o são?Nem eles próprios o sabem. Saberão quem os enviou? Têm na pupila uma visão terrível que nunca os abandona. Viram o oceano como Homero, o Cáucaso como Ésquilo, Roma como Juvenal, o inferno como Dante, o paraíso como Milton, o homem como Shakespeare. Ébrios de fantasia e intuição na sua marcha sobre as águas do abismo, atravessaram o raio do ideal, e este penetrou-os para sempre…Um pálido sudário de luz cobre-lhes o rosto. A alma sai-lhes pelos poros. Que alma? Deus.

Victor Hugo

Sobre o Terrorismo Poético da Negatividade

Robert Walser, um homem discreto, burguês  e vulgar. Teve vários empregos subalternos – empregado de livraria, secretário de advogado, empregado bancário, operário de fábrica. Walser retirava-se de vez em quando de Zurique para a Câmara de Escrita para Desocupados

Walser também foi parar aos manicómios. Ele dizia que era um zero à esquerda e queria ser esquecido. Caiu num ambíguo silêncio que durou 28 anos. Alguém disse que Walser é como um corredor de fundo que, quase a alcançar a desejada meta, pára surpreendido e olha para mestres e discípulos e desiste, isto é, fica na sua, que é uma estética de desconcerto. 

Walser faz lembrar Piquemal, um curioso sprinter, um curioso ciclista dos anos sessenta que era ciclotímico e às vezes se esquecia de terminar a corrida. 

Walser amava a vaidade, o fogo do Verão e os botins femininos, as casas iluminadas pelo Sol e as bandeiras ondulando ao vento. Mas a vaidade que ele amava nada tinha ver com o êxito pessoal, mas esse género de vaidade que á uma frágil exibição do mínimo e do fugaz

Robert Walser passou os vinte e oito últimos anos da sua vida fechado em manicómios.