Feliz aniversário, Slavoj Zizek!

“Um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que toda a sua correspondência seria lida pelos censores, disse aos seus amigos antes de partir: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa. Um mês depois, os amigos receberam a primeira carta dele, escrita a azul: é tudo uma maravilha por aqui. Os stocks das lojas estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas, prontas para um romance. A única coisa que não temos é tinta vermelha.”

Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.

– És tu Ernesto, meu amor?

Não era. Era o Bernardo.

Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes. É o que faz a miopia.


Mário-Henrique Leiria | Contos do Gin-Tonic

“Como se sente com esse sucesso?”

Nessa altura reajo para referir que, em primeiro lugar, não encaro de modo algum o estatuto de bestseller do meu livro como um feito ou realização conseguidos por mim, mas antes como a expressão da miséria do nosso tempo: se centenas de milhares de pessoas lançam mão a um livro cujo título promete lidar com a questão de um sentido para a vida, deve ser porque essa questão lhes está a queimar a pele.

Viktor Frankl | O Homem em busca de um sentido

Considerava as palavras do meu amigo enquanto bebia cerveja num bar perto da estação. No calor do bar a roupa fumegava. Gotas de água à volta. Calma solidão sem dor. Havia música. A minha alma conhecia os seus caminhos. A terra era grande. Tudo quanto eu fizesse, cada coisa que me acontecesse, não me tornariam maior ou menor que a fé ou o desespero. Pois o desespero era antigo: uma delgada, tenacíssima raíz. Era uma experiência, um pensamento, um destino – algo que eu aceitava, que me induzia talvez a amar a vida. Estava só no meio da chuva tranquila

Herberto Helder | Os Passos em Volta

– E de que vais falar papá? Terceiro erro.

– Do mundo dos espiões.

Comecei a contar-lhe como os espiões despistam os seu perseguidores através de um sistema conhecido como ziguezague. Saltam de um táxi à entrada do metro, depois de outro táxi noutro metro, tomam a carruagem no último segundo, saltam para o Cais no preciso momento em que se vão fechar as portas e cruzam e voltam a cruzar a casa de entrada dupla, depois a outra, e tomam outro táxi que os deixa numa paragem solitária aonde chegam suados e ofegantes e convencidos de que aquilo não serviu para nada, e então regressam como podem aos seus lares e aí choram em silêncio – como dizem que choraram os homens a sério-, porque se sentem muito sós e já velhos e acabados e não sabem por que continuam presos a um estilo de vida tão estranho.


Enrique Vila-Matas | Estranha forma de vida

Dantes eu era uma pessoa sombria: havia alturas em que tinha vontade de o explicar dessa forma. Dantes eu era uma pessoa sombria. Situava-me num lugar sombrio. O mundo monocromático, completamente desprovido de cor, onde vivia possuía uma calma que era bela à sua maneira, mas não um local ao qual pudesse voltar.

Han Kang | A vegetariana

Do you want my biography? Here it is. 

I was born in Taganrog in 1860. I finished the course at Taganrog high school in 1879. In 1884 I took my degree in medicine at the University of Moscow. In 1888 I gained the Pushkin prize. In 1890 I made a journey to Sahalin across Siberia and back by sea. In 1891 I made a tour in Europe, where I drank excellent wine and ate oysters. In 1892 I took part in an orgy in the company of V. A. Tihonov at a name-day party. I began writing in 1879. The published collections of my works are: “Motley Tales,” “In the Twilight,” “Stories,” “Surly People,” and a novel, “The Duel.” I have sinned in the dramatic line too, though with moderation. I have been translated into all the languages with the exception of the foreign ones, though I have indeed long ago been translated by the Germans. The Czechs and the Serbs approve of me also, and the French are not indifferent. The mysteries of love I fathomed at the age of thirteen. With my colleagues, doctors, and literary men alike, I am on the best of terms. I am a bachelor. I should like to receive a pension. I practice medicine, and so much so that sometimes in the summer I perform post-mortems, though I have not done so for two or three years. Of authors my favorite is Tolstoy, of doctors Zaharin.

All that is nonsense though. Write what you like. If you haven’t facts make up with lyricism.

Letter from Anton Tchekhov to V. A. Tihonov, dated February 23, 1892