Numa outra noite, um sonho. Tu corrias em dunas, que não eram de areia mas sim cheias de verde. Em baixo a imensidão do mar e eles com os pés mergulhados em aguas calmas e escuras. Olhavas as fisionomias mortas impotente, com o peito arfar de angústia e medo. Eram seres eternos. Anjos tristes. Demoravam o seu olhar no horizonte, na linha da água, num consentimento silencioso. Fixos no horizonte, não te ouviam. Tentativa de aproximação frustrada. Sentes te imobilizada, nenhum grito se solta.

Eles olham para ti. Tu consegues ver mas não é suposto. Percebes que é algo extinto, precioso, sagrado, por isso tens medo de ver. Voltam os seus rostos magros, bocas belas e amargas, par de asas escuras. Um último olhar desses seres eternos para ti. O olhar triste de desapontamento, desilusão profunda. Olham e despedecem–se em silêncio. Devolvem o olhar para as àguas, agora de punhos erguidos abrem as asas. Nada lhes faz falta. Ninguém os espera. Partem para a sua última morada. Começa o voo dos pássaros negros. Evaporam-se em fumo e cinzas para um ceú vazio. Esses seres eternos.

Não há sol, essa grande estrela amarela. E é noite sem luar. Do céu suspenso, um candelabro de salões e tempos muito antigos. Ilumina o sonho, é luar artificial, luz que cega, e faz doer a cabeça ferida por dentro. Deslizas da noite e do sonho, para a luz gloriosa que te envolve. Acordas com a manhã na janela, e os vestígios da noite no suor dos lençois. Gotas de suor que se escorrem pelas costas nuas. Corpo que chora sobre si mesmo. 

O sonho. 11 de Fevereiro de 2013

Tucker Madawick is seventeen years old. He is Lois Long’s son by her first husband. It was dinner time. He came home from his job in the Good Samaritan Hospital in Suffern and said to his mother, “Well, dear, I won’t be seeing you for a couple of days.” Lois Long said, “What’s up?” Tucker said, “Tomorrow night after work, I’m driving to Albany with Danny Sherwood for a cup of coffee, and I’ll be back for work the following day”. Lois Long said, “For heaven’s sake, you can have a cup of coffee here at home.” Tucker Madawick replied, “Don’t be a square. Read Kerouac.”

John Cage | Indeterminacy

O ideal universal da beleza na escultura grega aproxima-se igualmente de uma estreita semelhança entre o homem e a mulher. Não poderá residir aí um dos segredos do amor? Não será possível que nos mais íntimos recessos do amor, se esconda um desejo inacessível, o de que o homem e a mulher se transformem na imagem exacta um do outro? E não poderá acontecer que este desejo os invade e os impune, enfim, para uma trágica reacção, através da qual pensam atingir o impossível, dirigindo-se para o extremo contrário? Em suma, já que o seu amor mútuo não é capaz de realizar a perfeição da identidade mútua, não existirá um processo mental pelo qual cada um deles se esforça por acentuar os pontos de dissemelhança – o homem acentua a virilidade, a mulher a feminilidade – transformando esta revolta numa forma de sedução em relação ao outro.

Yukio Mishima | Confissões de uma Máscara

A única cosia que vale a pena é a educação. Todos os outros bens são humanos e pequenos e não merecem ser procurados com grande empenho. Os títulos nobiliárquicos são um bem dos antepassados. A riqueza é uma dádiva da sorte. A beleza é efémera; a saúde, inconstante. A força física cai tomada pela doença e pela velhice. A instrução é a única coisa que é imortal e divina. Porque só a inteligência rejuvenesce com os anos e o tempo, que arrebata com tudo, dá sabedoria à velhice. 

Irene Vallejo | O Infinito num Junco

– I mean there is reality. I mean you have all these stories people tell about reality. But ultimately there is reality. The best test of reality that I know is the test of suffering. Suffering is the most real thing in the world.

Yuval Noah Harari, resposta à questão “But is there such thing as truth?”

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade | Ausência

A ilha

Estamos numa ilha, numa ilha onde já tínhamos estado de passagem. Recordo-me daquelas águas tranquilas e mornas e da palmeira tombada. Não tinha planos de acordar numa ilha e sinto no corpo um estremecimento estranho, como se tivesse acordado de repente, de um sono longo e profundo. 

-Tenho a sensação de andarmos aqui às voltas. Acabo por dizer.

Estávamos paradas na rebentação do mar, mas contornávamos aquele pedaço de terra à horas. Pelo menos era o que parecia. Vejo os meus pés mergulhados na espuma de um mar. Um mar muito pouco furioso. As águas tranquilas e mornas, fazem-nos confundir as ondas com carícias. Lembro-me instantaneamente de uma frase de Ana Hatherly, – Não medir a altura do sonho. Não medir a distância de um sorriso. Quando a espuma das ondas chega à areia qualquer coisa de irreversível acontece.

-M., continuo a não perceber. Há um ano a ouvir o mar? Incrível, andas nisto de ouvir as ondas do mar ao acordar e nunca achaste isso estranho? Ela não responde. Está muito compenetrada, dedicada a tentar fazer desaparecer dentro da areia as conchas mais feias e danificadas, empurrando-as de forma muito sorrateira com os dedos dos pés. Era essa a sua arte. Agora que penso, fez isso a vida toda e de forma muito subtil, escondendo as falhas, os escombros. Uma arte.

-Continuo a achar que devias ter ido a um médico, mas tenho que admitir que não deixa de ser um sintoma poético. Ouvir o mar. De todos os sintomas possíveis… ouvir o mar. Só tu. 

Ela demora-se a resgatar uma concha qualquer que lhe captou mais a atenção. Mostra-me para a analisar e guarda-a no bolso do vestido. Um vestido com bolsos. Não sei como dizer isto mas é impossível estarmos ali. Aquele tarde é apenas uma impressão de uma tarde, uma premonição, uma tarde que nos estava predestinada.

-Sara, tu sempre procuraste poesia na medicina. Apoptose. Lembras-te? Morte celular para muitos, e para ti, a queda das pétalas. É dos livros. 

-Um livro é publicado a cada meio minuto – digo eu. 

Esta miúda guarda as memórias bem guardadas, pensei. Mas não só. Por falar em memórias, a noite desabou de repente. A água libertava incandescências. Questiono-me do porquê do fenómeno, de toda aquela calda de estrelas cadentes. Mas elas dançavam com os meus dedos, e isso divertia-me.

-Mas penso nisto tudo, sabes? Acho que me devias ter dito. Era o mínimo. Topa-me só este céu brutal…e esta água. Um céu assim não consegue suportar a multiplicidade de estrelas. Não há espaço que chegue no espaço, percebes? Algumas acabam por mergulhar sei lá. Existem paradoxos que explicam a distribuição regular e infinita de estrelas. 

Agora tínhamos a água pela metade do tronco. Estávamos mergulhadas no mar e nuas. Só nós contrastávamos com a imensidão da noite naquele mar e do céu nocturno. Ela sorria, com um daqueles sorrisos incompreensíveis. Soma de radiação, volume estrelar máximo diria eu. Aquele lugar era tão virgem. Eu não me lembro da última vez em que não estava com ela, com a M., ou o que estava a fazer. Não acho isso estranho, porque somos assim juntas. 

-M. estamos seguras aqui. “Uma morada para ignorar o mundo”.

-Esta?

-Claro. Porque não? Podíamos continuar assim, a apanhar conchas e abandoná-las na outra metade da ilha. Um punhado delas, guardávamos nos nossos bolsos, para que não caiam no esquecimento. Fazíamos o mesmo com as estrelas do mar. Deixávamos passar o tempo. Respirar o ar salgado. Murchar que nem flores ao sol.

-Sara, tens assim tanto medo do fim?